segunda-feira, abril 27, 2009

Correspondência Mítica

por J. L. Mora Fuentes


São Paulo, 2 de julho de 1977: Ao muito prezado senhor, morador do
seiscentos e quinze. Estimado amigo, venho através desta solicitar
encarecidamente que me ajude na solução de um íntimo e desatinado problema,
que tenho certeza sem nenhuma dúvida, muito facilmente poderia ser solvido
pela sua brilhante pessoa. Aproveito também esta para estender meus votos de
cordiais saudações, saúde esplêndida, e transmito desde já o pesar de que
ainda não compartilhemos mais intimamente uma única e excelsa fraternidade.
Mas os afazeres são tantos, acredito que com o senhor deve ocorrer o mesmo,
e o lazer cada vez mais raro e difícil. Caro também, mas isso não importa
agora, nem é desculpa que justifique em totalidade o nosso até agora
inexistente convívio. Falta, aliás, que breve pretendo remover do meu
destino, profundamente maculado por não conviver mais com pessoas tão
agradáveis como adivinho o senhor e todos os seus. Desejo sinceramente que
nossos corações se entrelacem em futuras e brilhantes tertúlias. O problema
(não chega rigorosamente a ser um), mas a questão é a seguinte e passo à
exposição do caso, pedindo-lhe as devidas licenças e desculpas por tamanha
ousadia. Sou um trabalhador. Acordo todos os dias às cinco horas, tenho que
chegar no escritório às seis, seis e meia no mais tardar porque sou eu quem
tem a chave e dessa forma quem abre a porta aos demais funcionários. Quando
me atraso, quarenta pessoas perdem seus horários de trabalho e ganham seus
devidos descontos no fim do mês. Nunca os salários são fartos o bastante
para que se possa dispor sem cair em desgraça dessas desagradáveis e
desnecessárias mordisquelas no soldo já tão exíguo. Eu mesmo não ganho tanto
que possa dispensar sem revertério algum isso que é meu. Bem, quando um
homem tem deveres tão matutinos é indispensável um mínimo de horas de sono,
não lhe parece? É exatamente esse o problema. Tento dormir mas é impossível
a um morto dormir nas condições que se me apresentam noite trás noite.
Descobri depois de nebulosas e infindáveis pesquisas, todas realizadas
nessas insoniosas noites, que isso que me afligia, e não só a mim, mas a
todos os meus, eram as suaves e delicadas sapatilhas de sua esposa. Penso
ainda no que a faria andar tantas horas por noite. Estendi a divagação até a
pergunta de por que não veste seus magníficos pés com qualquer outra coisa?
São trancos secos e perseverantes, pontiagudos estalidos pelo teto.
Contínuos. Contínuos. Lembram o som produzido por essas sandálias
acamurçadas com um pompom rosa na ponta que determinadas mulheres usam antes
de se deitar. Me diga num futuro encontro se acertei. O som não seria tão
desastroso se não impusesse sua permanência auditiva hora após hora, sem
intervalo, pausa ou variação mínima para que meus disciplinados ouvidos se
refaçam. Minha pobre mulher se sufoca noturnamente de dezenas desses
milagrosos comprimidos tentando numa aflição imersa em desespero e caos isso
que por direito seria seu: o sono. Eu já desisti. Os plactoplacs
intermitentes impossibilitam essa parcela de concentração exigida para tão
saboroso e reconfortante mister. Pensei comunicar o síndico do edifício, mas
me pareceu demasiado afrontoso e nem o caso era para tanto. Peço-lhe perdão
pelo incômodo. Não tenho nada contra esse hábito inescrupuloso de andar e
vagar madrugada afora. Nada tampouco contra sua mulher. Que ande quando lhe
aprouver e o tanto que quiser. Não se trata apenas de minha inexpressiva
pessoa. Pense nos outros todos, na minha esposa, a pobre, que perdeu cinco
quilos, nos trabalhadores prejudicados e com seus orçamentos abalados apenas
porque não pude dormir e me atrasei de algumas horas do compromisso de lhes
abrir a porta. O amigo percebe que não se trata de questão puramente
individual ou particular. Uma pequena parcela da classe operária é atingida
pelos plactoplacs da sua senhora. Encarecidamente lhe peço que ordene à sua
mulher que modifique o calçado. Temos tantos modelos para escolher, o país
até exporta milhares de sapatos, quem sabe um com o salto de borracha? Ela
poderia passar semanas se movimentando tranqüila, e nós também. Digo que nós
teríamos finalmente a paz. Se por acaso se tratar de um desses calçados de
estimação, quase da família já, tentem então, por favor, tapetes, pisos de
borracha, forrações várias como carpetes, e demais. O seu vizinho do
quinhentos e quinze agradece comovido. Repito os votos de magnífica saúde e
esplendorosa abastança. Me despeço, ciente de que serei atendido em tão
discreto e razoável pedido. Renovando saudações e a intenção futura de
maiores e mais afetuosos contatos, atenciosamente, Ataliba Leonel Júnior,
apto.515.

São Paulo, 3 de julho de 1977, Ao caro amigo do 515, Prezado senhor Ataliba.
Recebi com grave alegria e não menos espanto sua serena e deliciosa
cartinha. Comovi-me com sua situação, bem como a de todos os demais
funcionários e pessoas. Agradeço intenção e propostas de futura amizade e
dedico toda minha atenção para lograr o quanto antes tão airoso desfecho.
Sinto muitíssimo que as caminhadas noturnas da minha esposa o incomodem
tanto. Claro que vai se desfazer de suas queridas e VERDES sapatilhas,
ausentes do mínimo resquício e alma de um doce pompom que seja. Afinal, são
simples sapatilhas, e não um membro da família, como o senhor tão suave e
delicado insinuou. Tampouco a reposição vai ser tão simples como o amigo
supõe. Trata-se de calçado importado, adquirido numa das nossas viagens. Não
importa, se tanto lhe perturbava a tranqüilidade, que sua vontade seja
feita. Durma tranqüilo, senhor Ataliba. E que sua senhora despeje todos os
comprimidos no incinerador, uma vez que doravante serão inúteis. Ou então,
se desejar empregá-los da melhor forma, e se possuem de fato eficácia médica
comprovada, porque não os despeja todos garganta adentro de seus três
adoráveis filhos? Gritariam menos, e os alicerces do edifício não correriam
os riscos que correm atualmente. Imaginei meses seguidos que o senhor
criasse feras no seu apartamento. E também já ia comunicar ao síndico essa
contravenção quando recebi sua deliciosa missiva. E se prometo tomar
providências quanto à preservação do seu sono, tome o senhor as justas
medidas para a manutenção na exata ordem da minha saúde mental. Fico feliz
ao saber que sua esposa perdeu cinco quilos. Deve se sentir melhor assim,
pois não? E também não será mais necessário reforçar os cabos do elevador.
Economizaremos um pouco então, despesas com o condomínio são tantas, que o
mínimo poupado já é gratificante. Sem mais, desejando-lhe o de melhor, me
despeço, Artur Silveira Fernandes.

São Paulo, 4 de julho de 1977, Prezado senhor Fernandes, recebi sua carta
deixada na portaria. Não preciso dizer o quanto me surpreende sua pouca
compreensão para com a infância. Seria capaz de jurar que o senhor brotou no
mundo na forma como é agora, silencioso e carrancudo. Imagino o padecimento
de sua santa mãe se esse fato ocorreu como afirmo acima. No mais
tranqüilize-se, os meus três meninos vão se esforçar por lhe satisfazer a
vontade. Não mais vão se divertir como as demais crianças. Permanecerão
sentados no sofá vinte e quatro horas por dia, amarrados, para sua maior
segurança. Espero que o fato de passarem o tempo se distraindo com a
televisão não lhe desagrade, caso assim seja me comunique que destruirei o
aparelho. E já que falamos de eletrodomésticos, pediria também que evitasse
o estrondo do rádio, televisão e vitrola a todo volume. Se os seus são
surdos, os meus não. Compre um aparelho auditivo para sua delicada mãe,
poderá assim ouvir o mundo sem ensurdecê-lo. Acredito que se trata de um mal
congênito porque os discos de sua filha são colocados despudoradamente na
amplidão máxima do som. Somos obrigados também a assistir os programas que
vocês aí em cima acompanham, porque é inútil tentar ouvir qualquer outra
vibração que não o escangalho que escorre do seu apartamento. Espero
igualmente ser atendido. Seu, Ataliba Leonel.

São Paulo, 5 de julho de 1977, Senhor Leonel, Se tudo possui seu devido
limite, o amigo ultrapassou o seu. Minha mãe não é surda, não temos o mínimo
problema quanto à audição e desejaria que o senhor e os seus fossem ao
inferno com tão delicados e ultra-sônicos ouvidos. Exijo também que o
imbecil de seu primogênito não faça mais as bruscas manobras com o automóvel
na garagem do edifício. Nem ele tem idade para dirigir nem critério. Se o
pára-lama do meu carro sofrer o mínimo arranhão, o senhor se verá comigo. No
mais asseguro que vamos continuar escutando rádios, vitrolas e tevês no
volume desejado, e se isso tanto lhe perturba, por favor, se mate.

São Paulo, 6 de julho de 1977, Senhor Artur, se sua mulher continuar a andar
com esses malditos tamancos algo de terrível vai acontecer. Meu filho vai
dirigir na garagem porque eu quero que seja assim. E quanto aos gritos,
tente fazer o mínimo que seja. As crianças daqui para a frente vão tocar
tambor e saxofone, para seu aprazível deleite. Estamos pensando em formar
uma banda, nós todos aqui em casa, em sua exclusiva homenagem. E por favor,
arrebente sua televisão que nossos tímpanos já estão pelo chão há muito
tempo.

Senhor Ataliba: Escrevo para comunicar que a peste do seu primogênito está
amarrado e muito bem amordaçado na minha sala de banho. Atreveu-se o imbecil
pimpolho a marcar fundo a lateral do meu automóvel. Se avisar a polícia, o
síndico ou qualquer outra dessas atitudes covardes, pode ter certeza que o
matarei. O júri me absolverá comovido quando chegar ao conhecimento real dos
fatos torturantes a que sua família, e este idiota amordaçado em especial,
nos submeteu a todos aqui em casa. Exijo que vocês todos desapareçam do
prédio, deixando apenas a quantia exata para refazer meu veículo. Espero sua
resposta.

Artur, você desconhecia o período que passei no exército. Fui mestre em
explosivos. Sua querida mãezinha está igualmente amordaçada no quarto dos
fundos, junto com o pestilento animal que levava a passear. Se quiser rever
os dois, devolva meu filho, quanto ao carro, poderemos conversar depois. O
pavio não é muito comprido, e a carga é suficiente para esfarelar sua
lindamente engruvinhada progenitora. Quanto a sair do prédio, rimos muito
durante três horas.

Ataliba: Proponho a troca de sua lacrimejante senhora e absurdo filho pela
minha mãe e sua cadela de estimação. Atende por Daniela e é muito
suscetível. Dê-lhe boa comida nesse meio tempo. Por favor aceite o
intercâmbio porque não suporto ninguém da sua família por perto.

Artur: Sua filha, sua mulher, sua mãe e Daniela estão amarradas juntas ao
mesmo tonel de pólvora. Não devia deixar que fossem à feira sozinhas em
tempos como estes. Devolva os meus e terá os seus.

Ataliba: Os seus ocupam todo o espaço da minha sala de banho. Notei que
devemos estar os dois sozinhos em cada casa. Quero dizer, os meus estão aí e
os seus aqui. Proponho uma coisa: Por que não os deixamos morrer e vamos
embora? Ganhamos muito bem os dois, teríamos fartura. Juntos recomeçaríamos
tudo. Em prédios separados, é claro.

(in Fábula de um rumo - São Paulo: Ed. Moderna, 1980.)

Um comentário:

Ricardo disse...

((motivo para morar em casa que não seja geminada))++

:-D